
Fui mordido pelo "bicho" do coleccionismo, desde muito pequeno.
Isso fez que tivesse passado bons tempos e vivências inesquecíveis, quer durante as férias, quer aos fins de semana. A busca de moedas raras e notas antigas tornou-se para mim uma obsessão. Onde quer que fosse, perguntava sempre aos comerciantes e à população indígena se tinham algo para vender. Não me esquecerei jamais dos fins de semana que acompanhado de minha mulher e dos filhos pequenos lá íamos todos à procura de algo para comprar e orientado pelas cartas militares, metia-me por picadas e a maior parte das vezes por caminhos pedestres assinalados nas cartas para os KIMBOS ou SANZALAS, como eram conhecidos os aglomerados das populações indígenas. Bons carros os daquela época! Levava sempre um saco cheio de moedas que circulavam na altura para a compra.
Quando chegava aos locais assinalados, perguntava sempre primeiro pelo "SÓBA", nome por que eram conhecidos os chefes tribais e depois de apresentados, pedia-lhe que mandasse perguntar aos seus súbditos se tinham coisas antigas para vender. Era sempre bem recebido por eles que ficavam admirados por verem como eu tinha conseguido de carro chegar onde se encontravam. As crianças eram sempre as primeiras a aparecer e depois de saberem o que queria, iam de casa em casa, perguntar se alguém tinha algo para vender, não tardava muito que aparecessem várias pessoas sempre com algo na mão. A maior parte das coisas que traziam não interessavam, mas às vezes lá traziam umas moedas antigas, que os comerciantes da zona já não aceitavam nas compras, assim como notas muito velhas e rotas.
Dessas andanças, aventuras que os meus filhos ainda hoje não esquecem e que perdurarão neles e em mim para todo o sempre, ficaram retidas na minha memória dois episódios que jamais olvidarei. Uma das vezes fomos, com mais um casal amigo, fazer um picnic à ILHA DOS AMORES, local encantador e depois do almoço, enquanto faziam a digestão para depois irem para o rio tomar uma banhoca eu, movido por aquele célebre "bichinho" e observando a carta militar onde nos encontrávamos, verifiquei que não muitos quilómetros do local onde estávamos havia um Kimbo e resolvi ir até ao local, através de um carreiro, assim designávamos os caminhos pedestres. Depois de muito andar cheguei a um ponto em que não consegui avançar mais, devido à vegetação, mas avistava o Kimbo na encosta de uma elevação. Dava para ver as crianças brincando no terreiro frente às palhotas. Buzinei o quanto pude até que vieram ao meu encontro várias pessoas adultas e crianças também. Depois de lhes dizer ao que ia, um deles que estava já com uns copitos a mais e mal se podia conter de pé, disse-me que tinha em casa um saco cheio de moedas antigas, o que foi logo ali alvo de chacota por parte dos outros e eu, sinceramente tambem não liguei muito devido ao seu estado. Conversa daqui, conversa dali, despediram-se e só ficou comigo o que afirmava que tinha as moedas. Depois de conseguir fazer a inversão de marcha para regressar o indivíduo das moedas, colocou-se frente ao carro não me deixando avançar, saí do carro e ele disse-me que esperasse um pouco que ia a casa e voltava depressa, para eu esperar que não me havia de arrepender. Bem, com tanto palavreado acabou por me convencer a esperar e lá partiu. Pensei, "perdido por um perdido por mil". Liguei o rádio e fiquei ouvindo música e de vez em quando olhava para o relógio, já estava a ficar desesperado com a demora, até que o vi vir trazendo algo na mão. Chegado ao pé de mim, disse-me "ainda bem que esperaste" e colocou sobre o carro o saco e abrindo-o, qual o meu espanto, verifiquei que continha uma boa dezena de moedas de prata da monarquia, mais precisamente moedas de D.PedroV. Fiquei abismado e receoso de não ter comigo Escudos suficientes para lhe pagar. Perguntei quanto queria por aquilo tudo ao que respondeu "quanto tens?". Fui ao porta bagagem e tirei o saco cheio de moedas e mostrando depois de aberto o conteúdo, ele, sem pestanejar disse " negócio fechado". Pegou no saco que pesava ai umas vinte vezes mais do que o dele e despediu-se à pressa, dizendo que ia ao comerciante mais perto beber uns copitos.
Depois de observar bem as moedas mal podia acreditar que naquele confim do mundo pudesse jamais existir um património daqueles e como tinham ido ali parar. Confesso que nessa noite nem dormi direito só a pensar o quanto tinha aumentado a colecção.
Outro caso, foi que chegado a um Kimbo e depois das perguntas regulamentares, apareceu um indivíduo ainda novo com quatro notas iguais às representadas acima, dobradas mas em bom estado. Comprei-as claro e só me pergunto como é que fui achar estes "tesouros" naquele fim do mundo.
Dá para esquecer?????????


